{"id":10196,"date":"2023-03-15T16:36:00","date_gmt":"2023-03-15T19:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/comsefaz.org.br\/novo\/?p=10196"},"modified":"2024-03-07T16:37:13","modified_gmt":"2024-03-07T19:37:13","slug":"agendas-para-o-combate-a-pobreza-menstrual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comsefaz.org.br\/novo\/agendas-para-o-combate-a-pobreza-menstrual\/","title":{"rendered":"Agendas para o combate \u00e0 pobreza menstrual"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Tathiane Piscitelli*<br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio de pobreza menstrual em que vivem milhares de mulheres, meninas e outras pessoas que menstruam n\u00e3o \u00e9 novidade. Ao longo de 2021, diversas pesquisas foram produzidas sobre o tema, atestando a dificuldade de acesso a absorventes e a condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de higiene necess\u00e1rias para garantir a integridade f\u00edsica dessas pessoas. Segundo relat\u00f3rio publicado pela Unicef, mais de 4 milh\u00f5es de meninas (38,1% do total das estudantes) frequentam escolas com a priva\u00e7\u00e3o de [\u2026] requisitos<br>m\u00ednimos de higiene\u201d. Desse conjunto, h\u00e1 200 mil alunas que n\u00e3o t\u00eam acesso a nenhum item de higiene b\u00e1sica no ambiente escolar, de modo que \u201cest\u00e3o totalmente privadas de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para cuidar da sua menstrua\u00e7\u00e3o na sua escola\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Da perspectiva p\u00fablica, o enfrentamento dessa realidade pode ser feito de duas formas complementares. A primeira consiste na distribui\u00e7\u00e3o gratuita de bens de higiene menstrual \u00e0quelas que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade econ\u00f4mica; e a segunda se relaciona com a redu\u00e7\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o sobre tais bens.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>No que se refere ao primeiro instrumento, no final de 2021 o Congresso Nacional aprovou a Lei n\u00ba 14.214, que previa a cria\u00e7\u00e3o do Programa de Prote\u00e7\u00e3o e Promo\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade Menstrual, no contexto do qual haveria a distribui\u00e7\u00e3o gratuita de absorventes para meninas e mulheres em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade econ\u00f4mica. Para tanto, seriam utilizados recursos do SUS, Sistema \u00danico de Sa\u00fade. A medida representaria avan\u00e7o significativo e teria a capacidade de retirar milhares de pessoas da situa\u00e7\u00e3o de pobreza menstrual e de limita\u00e7\u00f5es de direitos b\u00e1sicos em que se encontram.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A despeito disso, os dispositivos foram vetados pelo Presidente Jair Bolsonaro, com fundamento<br>em argumentos equivocados relacionados com a inadequa\u00e7\u00e3o financeira da medida. Quanto ao segundo instrumento, deve-se destacar que o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que mais tributa absorventes no mundo, principalmente via ICMS.<br><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aqui uma contradi\u00e7\u00e3o relevante: o ICMS, por determina\u00e7\u00e3o constitucional, \u00e9 imposto que deve observar a seletividade, \u00e0 luz da essencialidade dos bens e servi\u00e7os que onera. N\u00e3o h\u00e1 qualquer d\u00favida que produtos de higiene menstrual s\u00e3o bens de consumo essencial, cujo acesso est\u00e1 diretamente<br>relacionado \u00e0 dignidade da pessoa humana e n\u00e3o h\u00e1 qualquer outro produto que se equipare<br>aos absorventes e assemelhados no universo da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o menstrua. A tributa\u00e7\u00e3o em<br>n\u00edveis que n\u00e3o observam a essencialidade dos bens em jogo tamb\u00e9m resulta em discrimina\u00e7\u00e3o de<br>g\u00eanero promovida pelo sistema tribut\u00e1rio.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no ano de 2021, discutiu-se no Comsefaz proposta de conv\u00eanio que autorizava a concess\u00e3o<br>de isen\u00e7\u00e3o de ICMS nas opera\u00e7\u00f5es com produtos de higiene menstrual7, com previs\u00e3o de dedu\u00e7\u00e3o<br>do valor do imposto do pre\u00e7o dos bens, com demonstra\u00e7\u00e3o expressa no documento fiscal.<br>A proposta, no entanto, n\u00e3o foi adiante e o argumento da regressividade do benef\u00edcio fiscal ecoou em muitos foros. Contudo, como j\u00e1 destaquei em outra oportunidade, o fato de a popula\u00e7\u00e3o mais pobre gastar menos com esses bens do que as camadas mais altas da sociedade apenas mostra que aquelas que t\u00eam menos capacidade econ\u00f4mica se refreiam no consumo e optam por substitutos que colocam sua integridade f\u00edsica \u2013 e muitas vezes mental \u2013 em risco.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Reportagem recente da Folha de S.Paulo atesta este ponto: diante da escassez de recursos financeiros<br>que assegurem, a um s\u00f3 tempo, a possibilidade da compra de alimentos e de absorventes, mulheres<br>da Ilha de Maraj\u00f3 cont\u00eam o fluxo menstrual com peda\u00e7os de pano. A essencialidade de ambos<br>os bens \u00e9 evidente e n\u00e3o h\u00e1 justificativa s\u00f3lida para a discrep\u00e2ncia no tratamento tribut\u00e1rio,<br>especialmente \u00e0 luz da falta de pol\u00edticas p\u00fablicas nacionais que assegurem a distribui\u00e7\u00e3o gratuita de<br>absorventes e produtos assemelhados. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso tudo, o tema merece ser amplamente discutido, e a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas<br>consistentes e de alcance nacional \u00e9 urgente. A desigualdade de g\u00eanero foi severamente<br>intensificada com a pandemia da Covid-19. O n\u00e3o enfrentamento adequado da pobreza menstrual<br>afasta as meninas da educa\u00e7\u00e3o formal, coloca-as em estado de vulnerabilidade econ\u00f4mica e atrasa o<br>desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tathiane Piscitelli \u00e9 professora de direito tribut\u00e1rio da Escola de Direito de S\u00e3o Paulo da Funda\u00e7\u00e3o Getulio<br>Vargas. Coordenadora do N\u00facleo de Direito Tribut\u00e1rio do Mestrado Profissional da mesma<br>institui\u00e7\u00e3o. Doutora em direito pela Universidade de S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tathiane Piscitelli* O cen\u00e1rio de pobreza menstrual em que vivem milhares de mulheres, meninas e outras pessoas que menstruam n\u00e3o \u00e9 novidade. 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